É possível operar o câncer de próstata preservando a ereção?

Tem uma pergunta que muitos homens têm vergonha de fazer antes da cirurgia:

“Doutora, como fica minha vida sexual depois da operação?”

A preocupação é legítima.

Quando um homem recebe o diagnóstico de câncer de próstata, a primeira reação costuma ser pensar no câncer, no tratamento e nas chances de controle da doença. Mas, à medida que as decisões começam a ser tomadas, surgem outras dúvidas igualmente importantes: vou continuar segurando a urina normalmente? Vou conseguir ter ereção? Minha vida sexual vai mudar?

Essas perguntas não são secundárias.

Elas fazem parte da qualidade de vida e precisam ser discutidas com clareza antes de uma prostatectomia radical.

A boa notícia é que, em determinados pacientes, é possível realizar a cirurgia para retirada da próstata preservando estruturas importantes para a função erétil.

Mas existe um princípio que precisa vir antes de qualquer promessa:

preservar a função nunca pode significar comprometer o tratamento do câncer.

Por que a cirurgia da próstata pode afetar a ereção?

Ao lado da próstata passam estruturas chamadas feixes neurovasculares.

São pequenos conjuntos de nervos e vasos sanguíneos envolvidos no mecanismo da ereção. Durante a prostatectomia radical — cirurgia em que a próstata é removida para tratamento do câncer — o cirurgião precisa trabalhar muito próximo dessas estruturas.

Quando o tumor permite, pode ser realizada uma técnica conhecida como preservação dos feixes neurovasculares, ou nerve-sparing.

O objetivo é retirar a próstata e tratar adequadamente o câncer tentando preservar, ao mesmo tempo, os nervos relacionados à função erétil.

Em alguns pacientes, é possível preservar os nervos dos dois lados. Em outros, apenas de um lado.

E existem situações em que a segurança oncológica exige que esses tecidos também sejam removidos.

Por isso, não existe uma única resposta para todos os homens.

Todo paciente pode ter os nervos preservados?

Não.

E essa talvez seja uma das informações mais importantes antes da cirurgia.

A possibilidade de preservação depende de vários fatores, como localização do tumor, extensão da doença, características encontradas na ressonância, resultado da biópsia, nível de risco do câncer e anatomia individual do paciente.

Se houver suspeita de que o tumor esteja muito próximo dos feixes neurovasculares ou ultrapassando os limites da próstata naquela região, insistir na preservação pode não ser a escolha mais segura.

Nesse momento, o objetivo principal precisa continuar sendo o controle do câncer.

É por isso que uma boa cirurgia começa muito antes do centro cirúrgico.

Ela começa na análise cuidadosa dos exames e no planejamento.

Onde entra a cirurgia robótica?

A cirurgia robótica trouxe recursos importantes para a prostatectomia radical.

O sistema oferece visão ampliada em alta definição, instrumentos articulados e movimentos muito precisos dentro de uma região anatomicamente delicada.

Na prática, isso pode ajudar o cirurgião a realizar uma dissecção mais refinada ao redor da próstata e das estruturas adjacentes.

Mas é importante entender uma coisa:

o robô é uma ferramenta. Ele não decide sozinho o que deve ou não ser preservado.

A qualidade da cirurgia depende do planejamento, da indicação correta, do conhecimento da anatomia, da experiência da equipe e, principalmente, da estratégia adotada para aquele paciente.

Por isso, a pergunta não deveria ser apenas:

“Minha cirurgia será robótica?”

Uma pergunta ainda mais importante é:

“Qual é a estratégia para retirar o meu tumor preservando o máximo possível da minha função sem comprometer minha segurança?”

Preservar os nervos significa que a ereção estará normal imediatamente?

Não necessariamente.

Mesmo quando os feixes neurovasculares são preservados, os nervos podem sofrer manipulação e um período temporário de redução de função.

A recuperação pode acontecer progressivamente ao longo dos meses.

Idade, qualidade das ereções antes da cirurgia, presença de diabetes, doenças cardiovasculares, tabagismo, extensão da preservação neural e características individuais também influenciam o resultado.

É importante conversar sobre isso antes da operação porque expectativa adequada faz parte do tratamento.

Nenhum cirurgião responsável deveria prometer que determinado paciente terá exatamente a mesma função sexual depois da cirurgia.

O que pode ser feito é avaliar o cenário individual e planejar a melhor estratégia possível.

E se houver dificuldade de ereção depois da cirurgia?

O acompanhamento não termina quando o paciente recebe alta.

Esse é um ponto fundamental.

A recuperação sexual após prostatectomia pode fazer parte de um processo chamado reabilitação peniana, quando indicado.

Dependendo do paciente, o acompanhamento pode incluir medicamentos, estratégias para estimular a função erétil e outras formas de tratamento.

Cada caso precisa ser avaliado individualmente.

Por isso, antes da cirurgia, não basta discutir apenas “como retirar a próstata”.

Também precisamos conversar sobre como será a vida depois da cirurgia.

Quando poderá voltar às atividades habituais?

Como será a recuperação da continência urinária?

Como será acompanhado o PSA?

Como será conduzida a recuperação sexual?

Essas perguntas fazem parte do planejamento.

A decisão mais importante é individual

Dois homens podem ter câncer de próstata e receber estratégias cirúrgicas diferentes.

Um pode ter um tumor pequeno e localizado longe dos feixes neurovasculares, permitindo preservação bilateral.

Outro pode apresentar uma lesão próxima a essas estruturas, exigindo uma abordagem mais cautelosa.

Isso não significa que uma cirurgia foi “melhor” que a outra.

Significa que cada operação precisa respeitar a realidade oncológica daquele paciente.

É justamente por isso que o tratamento do câncer de próstata não deveria ser conduzido como uma sequência automática de etapas.

Exame alterado.

Biópsia.

Diagnóstico.

Cirurgia.

Existe raciocínio entre cada uma dessas fases.

E quanto mais informações temos antes de operar, melhor podemos discutir riscos, possibilidades e prioridades.

Não tenha vergonha de perguntar sobre sua vida sexual

Muitos pacientes perguntam sobre o câncer e deixam a questão sexual para o final da consulta.

Alguns nem perguntam.

Mas esse assunto precisa estar na mesa desde o início.

Conversar sobre ereção depois da prostatectomia não diminui a gravidade do câncer. Pelo contrário: demonstra que estamos olhando para o paciente inteiro — para o tratamento da doença e para a qualidade de vida que ele terá depois.

A medicina moderna não busca apenas retirar um tumor.

Busca, sempre que oncologicamente possível, tratar a doença preservando função e qualidade de vida.

Mas a ordem precisa estar clara:

primeiro, segurança oncológica. Depois, dentro do que é seguro, máxima preservação funcional possível.

Se você recebeu o diagnóstico de câncer de próstata ou uma indicação de cirurgia, procure entender exatamente as características do seu caso.

Pergunte se existe possibilidade de preservação dos feixes neurovasculares.

Pergunte quais fatores podem influenciar sua recuperação.

Pergunte como será acompanhado depois da operação.

E, principalmente, não fique sozinho tentando encontrar respostas fragmentadas na internet.

Paciente não precisa apenas de uma cirurgia. Precisa de uma estratégia para o câncer, para a recuperação e para a vida depois do tratamento.

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